50 anos depois, Maria Antonia rememora sua famosa batalha. USP promove série de eventos, gratuitos e abertos ao público, no histórico prédio do Centro Universitário Maria Antonia

maria antonia

O Centro Universitário Maria Antonia (CEUMA) da USP recebe, de 2 a 5 de outubro, a série de eventos Ecos de 1968 – 50 anos depois, que resgata com diferentes elementos a memória dos episódios ocorridos no local em outubro 1968, conhecidos como a Batalha da Maria Antonia.

Os confrontos, que no dia 2 completam 50 anos, foram protagonizados por estudantes da USP e do Mackenzie e por policiais militares, tendo resultado na morte de um estudante secundarista e deixado dezenas de feridos. Pouco tempo depois, o governo militar utilizou o fato como um dos pretextos para o endurecimento do regime, promulgando o Ato Institucional número 5.

Ecos de 1968 tem a intenção de marcar esse aniversário utilizando elementos da arte e da cultura, como filmes, leituras cênicas, performances, apresentações musicais, videomapping e exposições, além do relançamento de livros históricos e mesas de debates que reunirão algumas das pessoas que vivenciaram aquele ambiente.

Para a coordenadora geral do evento, professora Margarida Kunsch, “o público terá a oportunidade não só de conhecer mais sobre essa história, mas também de entender melhor como ela se relaciona com o contexto da época e o ambiente social, político e universitário dos anos 1960 e 1970. Será um momento de reflexão e de sensibilização sobre a importância da democracia e as problemáticas de sua ausência para uma sociedade e uma nação”.

Já para a diretora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), Maria Arminda do Nascimento Arruda, “a partir de 68, tudo se alterou. A USP se transforma brutalmente, pois a concepção de universidade não é mais aquela que estava encarnada na Faculdade de Filosofia, a instituição envolvida com a chamada Batalha da Maria Antonia. Sendo que para a sociedade, não é nem necessário falar muito, as consequências são o fechamento político e a ditadura, que já apontavam para destinos assistidos ainda hoje”.

Maria Arminda, que era aluna de Ciências Sociais da Faculdade na época, ressalta ainda a importância de lembrar deste momento histórico. “Quando a gente rememora, lembramos o projeto que estava imbuído ali na universidade e, ao mesmo tempo, estamos demonstrando os problemas derivados de situações como aquela”.

Para Kunsch, o nome da programação reverbera tais problemas: “Podem ser apontadas consequências que acabam de certa forma perdurando ou pelo menos influenciando até os dias de hoje, fato que inspira e justifica o termo ‘ecos’ no título do evento”.

Programação do Evento

Coordenada pela Pró-Reitoria de Extensão Universitária (PRCEU), a programação foi construída com a participação do TUSP, do Cinusp Paulo Emílio, do Coralusp e da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), além do próprio CEUMA.

Quatro exposições trazem fotos e documentos históricos, e intervenções artísticas propõem reflexões e resgates através da arte. Dois livros editados na época da Batalha da Maria Antonia serão lançados em novas edições, acompanhados de mesas de debates com personalidades e pesquisadores como André Singer, Marilena Chauí, Maria Cecilia Loschiavo dos Santos e José Arthur Gianotti, entre outros.

A programação de filmes inclui cinco produções que retratam personagens e episódios reais que marcaram a sociedade brasileira da época. No teatro, três leituras cênicas também resgatam a história e propõem discussões.

Todas as atividades são gratuitas e abertas ao público. O CEUMA fica localizado na rua Maria Antonia, 294, de fácil acesso pelas estações Higienópolis e Santa Cecília do metrô. A programação completa e detalhada pode ser consultada logo abaixo.

Ao longo do mês também será publicada uma série especial de reportagens e depoimentos produzidos pelo Jornal da USP, no endereço: https://jornal.usp.br/

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Programação completa:
(sujeita a alterações)

2 de outubro, terça-feira
19h – Saguão do Ed. Joaquim Nabuco: Abertura oficial com autoridades
– Reitor: Vahan Agopyan
– Vice-Reitor: Antonio Carlos Hernandes
– Pró-Reitora de Cultura e Extensão Universitária: Maria Aparecida de Andrade Moreira Machado
– Pró-Reitor de Graduação: Edmund Chada Baracat
– Pró-Reitor de Pós-Graduação: Carlos Gilberto Carlotti Júnior
– Pró-Reitor de Pesquisa: Sylvio Roberto Accioly Canuto
– Diretora da FFLCH: Maria Arminda do Nascimento Arruda
– Superintendente de Comunicação Social da USP: Luiz Roberto Serrano

Participação especial: CORALUSP

20h – Atividades artístico-culturais:
– Performance “Ainda resistimos”, Coletivo Coletores (a partir das imagens de Hiroto Yoshioka, a performance integra memória, vídeo mapping e a fachada lateral do Maria Antonia, apresentando a força das coletividades e da luta popular a partir da combinação de diferentes imagens e textos). (15’);
– Abertura da nova fase da Exposição RE VOUVER (com fotos inéditas de Hiroto Yoshioka, vídeo, reprodução de jornais e revistas da época, além da instalação de totem com acesso ao site da Comissão da Verdade da USP);
– Abertura da Exposição RE VELANDO (em parceria com o Instituto Vladimir Herzog, composta de fotos de Luis Humberto e Orlando Brito);.
– Abertura da Exposição “Camadas: narratividades visuais da violência” (Coletivo Lâmina, com curadoria de Ana Avelar);
– Abertura da exposição OS FUZIS DA DONA TEREZA CARRAR;
– Abertura da intervenção “Alteração de foco 0118”, do artista visual Diego Castro.

3 de outubro – quarta-feira

16h – Exibição do filme A Batalha da Maria Antonia (2014, 1h16m), dir. Renato Tapajós
O documentário trata do confronto entre estudantes da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP e estudantes da Faculdade Mackenzie, que culminou na morte do estudante secundarista José Guimarães e no incêndio e destruição do prédio da Faculdade de Filosofia, em outubro de 1968, na rua Maria Antonia, em São Paulo. Tal acontecimento é emblemático para a compreensão da resistência à ditadura civil-militar que se instalara no Brasil a partir do golpe de 1964.

19h00 – Lançamentos com debates, realizados pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, da reedição de duas importantes obras relativas à história de sua antiga e mítica sede, na Rua Maria Antonia.

Abertura
Maria Arminda do Nascimento Arruda

Lançamento 1
[LIVRO BRANCO] OS ACONTECIMENTOS DA RUA
MARIA ANTONIA (2 e 3 de outubro de 1968)
Relatório acompanhado de importantes documentos, datado de 06 de novembro de 1968, elaborado por uma Comissão de Professores da então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, nomeada pela sua Congregação, com o objetivo de apurar, através de depoimentos, análise de fotos, noticiário de imprensa e de outros documentos, os fatos ocorridos nos dois dias de conflito e seu contexto geral. Presidida por Simão Mathias, essa comissão foi composta por Antonio Cândido (relator), Carlos Alberto Barbosa Dantas, Carlos Benjamin de Lyra, Eunice Durham e Ruth Cardoso.
Reedição ampliada organizada por Abilio Tavares e Irene Cardoso.

Debate 1
Expositores
Carlos Alberto Barbosa Dantas (Caio)
Irene de Arruda Cardoso

Mediador:
André Singer

Lançamento 2
MARIA Antonia: UMA RUA NA CONTRAMÃO
Organizado por Maria Cecília Loschiavo dos Santos, o livro reúne o depoimento de 31 importantes personalidades sobre a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, na Rua Maria Antonia, entre 1948 e 1968.

Debate 2
Expositores
Adélia Bezerra de Menezes
Franklin Leopoldo e Silva
José Arthur Giannotti
Marilena Chauí

Mediadora
Maria Cecília Loschiavo dos Santos

21h – Leitura cênica de “Os fuzis da Sra. Carrar” com direção de Maria Thaís, participação de Juçara Marçal e estudantes de Artes Cênicas da USP.

O texto de Brecht foi encenado pelo Teatro dos Universitários de São Paulo em 1968, com direção de Flávio Império. A leitura cênica atual será feita com direção de Maria Thaís e participação de coros de alunos da Escola de Comunicações e Artes e artistas convidados). Maria Thais é Diretora Teatral, Professora e Pesquisadora. Professora Doutora do Departamento de Artes Cênicas da ECA, da Universidade de São Paulo, na graduação (áreas de Atuação e Direção Teatral) e no Programa de PPGAC (Área de Concentração: Pedagogia do Teatro. Linha da Pesquisa: Formação do Artista Teatral). É fundadora da Cia Teatro Balagan (reconhecida em 2014 como patrimônio imaterial da Cidade de São Paulo), atuando como encenadora de diversos espetáculos de grande repercussão.

4 de outubro, quinta-feira

16h – Exibição do filme Jango (1984, 1h57m), dir. Silvio Tendler
O filme refaz a trajetória política de João Goulart, o 24° presidente brasileiro, que foi deposto por um golpe militar nas primeiras horas de 1º de abril de 1964. Goulart era popularmente chamado de “Jango”, daí o título do filme, lançado exatos vinte anos após o golpe. A reconstituição da trajetória de Goulart é feita através da utilização de imagens de arquivo e de entrevistas com importantes personalidades políticas como Afonso Arinos, Leonel Brizola, Celso Furtado, Frei Betto e Magalhães Pinto, entre outros. O sugestivo slogan do filme foi “Como, quando e por que se derruba um presidente”.

19h – Exibição do filme Diário de uma busca (2011, 1h47m), dir. Flávia Castro
O jornalista Celso Afonso Gay de Castro morreu aos 41 anos, na cidade de Porto Alegre, em circunstâncias suspeitas. O militante político de esquerda foi exilado durante a ditadura militar brasileira. Durante esse período, ele percorreu diversos países, como Argentina, Venezuela, Chile e França, sempre acompanhado de sua família. Uma vida marcada pela história da luta armada, exílio e ausência. Sua repentina morte deixou seus familiares com um vazio e um mistério, que a filha Flávia tenta desvendar.

21h – Leitura cênica “A lua muito pequena” peça de Augusto Boal, de 1968 e publicada na revista Aparte do Tusp. Direção de Rogério Tarifa, com Teatro do Osso, grupo convidado;

A peça de Boal fazia parte do espetáculo Feira Paulista de Opinião de 1968. Direção de Rogério Tarifa, diretor reconhecido no jovem teatro de grupo da cidade de São Paulo com companhia profissional, formada por egressos da Escola de Arte Dramática. O Teatro do Osso foi fundado em fevereiro de 2015, dentro da Escola de Arte Dramática, com a criação do espetáculo Canto para Rinocerontes e Homens. Dirigida por Rogério Tarifa (Prêmio Shell na categoria Melhor Cenário), a montagem retoma a parceria com Jonathan Silva e William Guedes (vencedores do Prêmio Shell de Melhor Música), já realizada anteriormente em “Concerto de Ispinho e Fulô” e “Cantata para um Bastidor de Utopias”.

Conversa com Cecília Boal.

5 de outubro, sexta-feira

16h – Exibição do filme Vlado, 30 Anos Depois (2005, 1h30m), dir. João Batista de Andrade
No dia 25 de outubro de 1975, o jornalista Vladimir Herzog compareceu ao DOI-Codi para prestar depoimento. No fim da tarde do mesmo dia, a terrível notícia: Vlado estava morto e, segundo fonte oficial, teria cometido suicídio na prisão. O filme revela, a partir de depoimentos de amigos, familiares e colegas que conviveram com ele, a história, a amplitude das perseguições daquele momento e a trajetória do jornalista. Relata desde sua infância, na Iugoslávia, com sua família de origem judaica, fugindo da perseguição nazista, passando por suas ideias políticas, sua militância, seu senso de ética, até chegar à sua posse como diretor de jornalismo na TV Cultura de São Paulo.

19h – Exibição do filme Que Bom Te Ver Viva (1989, 1h40m), dir. Lúcia Murat
Ex-presas políticas da ditadura civil-militar brasileira analisam como puderam enfrentar as torturas e prisões, relatando as situações e como sobreviveram a esse período, no qual delírios e fantasias são recorrentes. O filme intercala cenas documentais com um monólogo ficcional, amálgama dos relatos e das memórias dessas mulheres.

21h – Leitura cênica e debates da Revista Aparte: cultura e política em 1968. Direção de Sérgio de Carvalho, com atores convidados e conversa posterior.

Direção de Sérgio de Carvalho, diretor do Tusp, com artistas e músicos. Participação de Cecília Boal (RJ) e outros convidados. A leitura procura reencenar os debates estéticos presentes dos primeiros números da revista em torno do teatro no ano de 1968, contrapondo posições de Anatol Rosenfeld, Zé Celso de Augusto Boal. As raízes da revista aParte, publicação do Teatro dos Universitários de São Paulo – nome de batismo do TUSP – datam de 1968. Seus dois números iniciais (um terceiro não foi publicado e acabou destruído com o acirramento da perseguição política) são documentos estético-políticos importantes sobre o período.

CEUMA USP
Centro Universitário Maria Antonia
R. Maria Antonia, 258 e 294 | Vila Buarque
São Paulo – SP
CEP: 01222-010
(11) 3123-5201
mariantonia@usp.br
http://prceu.usp.br/centro/maria-antonia/

Exposição ReVelando – Mostra ECOS de 1968

ReVelando

Com lançamento nesta terça-feira (02/10), às 19h, a exposição ReVelando, parceria do Instituto Vladimir Herzog (IVH) com o Centro Universitário Maria Antonia, faz parte das ações e reflexões que acontecerão no prédio histórico da Universidade de São Paulo para marcar os 50 anos do evento conhecido como a Batalha da Maria Antonia. A mostra está inserida na programação Ecos de 1968 e trata do contexto de recrudescimento da ditadura civil-militar brasileira que culminou na promulgação do AI-5 em 13 de dezembro de 1968. Com visitação gratuita, a exposição ficará aberta até fevereiro de 2019.

Composta por 32 imagens de dois grandes fotojornalistas brasileiros, Luis Humberto e Orlando Brito, a mostra relembra pessoas, lugares e fatos que marcaram um dos mais terríveis períodos da história do país. As fotos foram expostas pela primeira vez em 2013 na seção “Brasília no tempo da ditadura”, parte da exposição Resistir é Preciso, projeto organizado pelo IVH.

Na mesma data, será lançada também a exposição ReVouVer que apresenta imagens dos conflitos que envolveram estudantes e a polícia nas imediações da antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP – em especial as do fotógrafo Hiroto Yoshioka, estudante de arquitetura da USP em 1968 e testemunha dos acontecimentos; o documentário de Renato Tapajós “A Batalha da Maria Antonia”, de 2014; e fac-símiles de jornais e revistas da época.

No momento em que assistimos ao tensionamento da democracia no Brasil, o Instituto Vladimir Herzog e o Centro Universitário Maria Antonia reafirmam sua vocação na defesa dos valores democráticos e de sua permanente reinvenção.

Serviço:
Exposição ReVelando – Mostra ECOS de 1968
Lançamento: 02 de outubro, às 19h
Visitação: 02 de outubro de 2018 a 28 de fevereiro de 2019
Local: Centro Universitário Maria Antonia (USP)
Rua Maria Antonia, 294, Vila Buarque, São Paulo/SP
Entrada aberta e gratuita.

CEUMA USP
(11) 3123-5201
http://prceu.usp.br/centro/maria-antonia/

Instituto Vladimir Herzog (IVH)
(11) 2894-6650
http://vladimirherzog.org/

Saiba Mais: https://jornal.usp.br/cultura/exposicao-relembra-a-batalha-da-maria-antonia/